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CRÔNICAS
DE NEGÓCIOS
- 100 anos do cometa
Harley
Há cem
anos aparecia um cometa. Não estou falando do Halley, que veio do espaço,
mas da
Harley, que criou um
espaço. Um espaço permanente na mente de jovens que sonhavam com a
liberdade do vento cantando nos ouvidos. Acompanhado de um contra-baixo, o
motor possante e pulsante fazendo um "tu-tu-tu-tu"
que subia de entre as pernas até o coração. Mas será que a Harley-Davidson
é a melhor motocicleta à venda?
Eu não entendo nada de motocicletas, mas ouvi da boca de entusiastas
apaixonados que não. Alguns eu conheci quando parei num posto da Rodovia
dos Bandeirantes para um café. Eram três, cada um com sua moto, uma alemã
e duas japonesas. Pediram se eu podia bater uma foto do trio. Disse que
sim.
O menos grisalho me entregou a câmera, mostrou onde eu devia ficar e
correu posar. Pelo visor enxerguei os três ao lado de suas máquinas,
vestindo de orgulho seus macacões de couro, botas de couro, luvas de couro
e sorrisos de ouro. Onde estariam os netos?
"Tem alguma Harley aí?", perguntei, sabendo que não tinha. Puxei
conversa enquanto puxava um cartão. "Sou palestrante e costumo falar
da estratégia de marketing da Harley em minhas palestras", disparei
meu institucional. Sabe como é, três grisalhos passeando com motos caras
em horário de trabalho, bem podem ser empresários. Clientes em potencial.
Percebi que tinha pressionado a tecla da paixão. Eu sabia que mesmo que
não pressionassem o selim de uma Harley sob o fundilho, deviam ter uma
fazendo pressão lá dentro do coração. Acertei.
Minha conversa devolveu anos de vida e entusiasmo aos três jovens anciãos,
que passaram a explicar que não tinham Harley porque não era a melhor
máquina. Mas o brilho nos olhos denunciava que era o melhor mito. Um deles
teve a máquina e o mito. Tinha saudades mais do mito do que da máquina.
Nascida numa empresa de garagem, a Harley-Davidson deu seus primeiros
passos nas corridas em estradas e no exército americano. Sua imagem foi
associada à liberdade na década de sessenta. Filmes como os Hell's
Angels e Easy Rider ajudaram a sedimentar a imagem rebelde.
Enquanto isso, a Honda anunciava: "You meet the nicest people on a
Honda". Ser cheiroso e comportado parecia então a alternativa
politicamente correta para o suado de colete cavado.
Enquanto as comportadas japonesas venciam a corrida do mercado uma
agonizante Harley suspirava seus últimos "tu-tu-tu-tu".
Foi quando os funcionários assumiram a empresa para resgatar o sonho. Mas
será que alguém queria sonhar um sonho antigo? Muita gente
Toda a geração que em criança sonhava ser um misto de mocinho e bad
guy, sempre quis pilotar uma Harley, para o horror dos pais. Mas
agora quem sonhou viajar vestido de couro, com um lenço amarrado na testa
e uma tatuagem no braço, podia contar o vil metal. Quarentão como nossos
pais. Era hora de abrir o baú das paixões reprimidas.
Exumar o cadáver de um design quarentão foi a estratégia proposital da
Harley para seu novo posicionamento radical. Como resposta ao design
futurista das japonesas, o lema passou a ser: se as japonesas virarem o
guidão para a direita, nós viramos para a esquerda. Hoje as japonesas
desenterram uma linha de design quarentão, mas será que o finado faz o
mesmo "tu-tu-tu-tu"? Não.
A ressurreição da Harley permitiu ao cidadão quarentão, que trabalhava o
dia todo atrás de uma mesa vestido numa camisa branca e preso à coleira da
gravata, realizar seu sonho. A realidade agora ele podia comprar.
Desde então uma metamorfose ocorre nos finais de semana em todo o mundo.
Qual um Hulk, que não é verde porque é maduro, o comportado
bancário se veste de couro preto com todos os ilhoses de um bad guy.
Amarra um lenço na testa, cola uma tatuagem de chiclete no braço e sai
estrada afora. Fazendo "tu-tu-tu-tu".
Se a Harley-Davidson tivesse feito uma pesquisa de mercado, o público
teria preferido os desenhos futuristas e a tecnologia avançada das
japonesas. Pesquisas de mercado costumam sondar a razão. A Harley-Davidson
deu a volta por cima porque pesquisou o coração. E acertou na paixão.
Hoje a marca detém quase 50% dos norte-americanos equilibrados em duas
rodas. Muito mais que os 17% de market share da época em que a
empresa se equilibrava fugindodo bico do corvo. O resto pode não trazer
uma Harley sob o traseiro e um "tu-tu-tu-tu"
entre as pernas, mas certamente leva uma Harley no desejo.
Desejo da liberdade de viajar na cauda de um cometa, porque é isso que a
indústria de motocicletas vende. A sensação que Sonia Carrato descreve em
seu poema
"Insensatez",
que não fala de motocicletas, mas descreve de forma mais bela o que tentei
dizer, quando diz:
"Tomada de êxtase e alegria descobri
a magia de viajar na cauda de um cometa e a volúpia de dançar ao som do
vento..."
...e do "tu-tu-tu-tu" de uma Harley batendo no
peito, eu diria.
Mario Persona é consultor, escritor e palestrante. Esta crônica
faz parte dos temas apresentados em suas palestras. Veja em
www.mariopersona.com.br
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